Burden
of Truth é o terceiro álbum de estúdio da banda norte-americana
Circle II Circle. Seu lançamento oficial aconteceu em 10 de outubro
de 2006, através dos selos AFM e Locomotive Records. As gravações
ocorreram no Morrisound Studios, em Tampa, na Flórida, nos Estados
Unidos durante o ano de 2006. A produção ficou a cargo de Zachary
Stevens, Dan Campbell e Jim Morris.
CIRCLE II CIRCLE - BURDEN OF TRUTH (2006)
Burden
of Truth é o terceiro álbum de estúdio da banda norte-americana
Circle II Circle. Seu lançamento oficial aconteceu em 10 de outubro
de 2006, através dos selos AFM e Locomotive Records. As gravações
ocorreram no Morrisound Studios, em Tampa, na Flórida, nos Estados
Unidos durante o ano de 2006. A produção ficou a cargo de Zachary
Stevens, Dan Campbell e Jim Morris.
É
hora do RAC trazer, pela primeira vez em suas
páginas, a banda Circle II Circle, com o álbum Burden of
Truth. Vai-se, resumidamente, abordar os fatos que antecederam o
lançamento do disco para depois se ater às faixas propriamente
ditas.
The
Wake of Magellan
The
Wake of Magellan é um disco sensacional, com faixas incríveis
como “Turns to Me”, “Morning Sun” e “Anymore”.
Naquela
época, o vocalista do Savatage era Zachary ‘Zak’ Stevens.
The
Wake of Magellan tratou de conceitos como o valor de uma vida,
suicídio e abuso de drogas, com base em eventos da vida real, como o
Maersk Dubai e o assassinato de Veronica Guerin. (Nota do Blog:
Em 12 de março de 1996, dois passageiros clandestinos, Radu Danciu e
Petre Sangeorzan, foram descobertos no navio de carga Maersk Dubai e
encomendados ao mar, por uma balsa improvisada, a aproximadamente 70
quilômetros da costa de Gibraltar. Em 18 de maio do mesmo ano,
enquanto o navio estava em rota para o Porto de Halifax, Nova
Escócia, outro romeno, Gheorghe Mihoc, foi encontrado escondido em
um grande recipiente de carga e foi lançado ao mar, ao ponto da
faca, pelo Capitão Sheng Hsiu e quatro de seus oficiais. Um quarto
passageiro clandestino, Nicolae Pasca, foi descoberto pelo filipino
Rodolpho "Rudy" Miguel e manteve-se escondido até que o
navio chegou a Halifax, onde oito tripulantes filipinos (incluindo
Miguel) deixaram o navio e relataram o incidente às autoridades. À
chegada a Halifax, o Maersk Dubai foi invadido pela Royal Canadian
Mounted Police (GRC), e o capitão Hsiu e seus oficiais taiwaneses
foram presos e acusados de assassinato em primeiro grau. O operador
de rádio tentou escapar pulando no porto e depois foi preso. O
capitão Hsiu tentou negar o acesso ao navio de acordo com as leis de
frete internacional).
(Nota
do Blog: Veronica Guerin foi uma jornalista irlandesa. Começou
tardiamente na profissão, depois dos 30 anos, e gostava do
jornalismo investigativo. Exemplo de determinação e coragem, sua
vontade incessante por justiça fez com que pagasse com a vida a
investigação a fundo sobre a máfia e o tráfico de drogas em
Dublin, capital da Irlanda, durante a década de 1990. Denunciou
também a ligação que alguns dos mais importantes gângsteres
tinham com o IRA. Sofreu um atentado e chegou a ser espancada por um
dos maiores mafiosos da cidade. Depois do seu assassinato, a
população da Irlanda se revoltou e foi às ruas fazer protestos, e
os barões do tráfico tiveram seus bens confiscados e foram presos).
O
Savatage deixou, após um contrato de longo prazo, a Atlantic
Records depois deste lançamento e, eventualmente, assinou com uma
organização muito menor, a Nuclear Blast. Jon Oliva, líder do
grupo, disse que esta foi uma boa jogada, já que a nova gravadora
“adorava a banda e eles conheciam nossas músicas e tudo!”.
A
partir de 1996, Stevens apareceria junto com outros membros do
Savatage no projeto paralelo chamado Trans-Siberian Orchestra.
Seu último álbum gravado com o Savatage foi mesmo The
Wake of Magellan (1997), que alguns fãs consideram o melhor
trabalho do grupo pós-1993.
Trans-Siberian
Orchestra
O
projeto Trans-Siberian Orchestra surgiu com o produtor, compositor e
letrista Paul O'Neill, reunindo Jon Oliva e Al Pitrelli (ambos
membros do Savatage) e o tecladista e coprodutor Robert Kinkel
para formar o núcleo criativo do conjunto. Normalmente, o grupo
convidava diversos artistas para participarem das gravações e
turnês, especialmente vocalistas.
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| Zak Stevens |
Zak
Stevens participou da gravação de 3 álbuns de estúdio do grupo
até aquele momento: Christmas Eve and Other Stories (1996),
The Christmas Attic (1998) e Beethoven's Last Night (2000).
Mudanças
Em
2000, Stevens deixou o Savatage, citando que queria passar mais tempo
com sua jovem família. Durante o inverno norte-americano de 2001, Zak começou seu
retorno às suas atividades musicais.
Zak
começou seu retorno com seu amigo de longa data, Dan Campbell,
coescrevendo material com Jon Oliva e o guitarrista Chris Caffery
(ambos do Savatage). Foi neste momento que Stevens e Campbell
resolveram criar um conjunto, o Circle II Circle.
Muito
do material novo se tornaria as músicas do álbum de estreia da nova
banda, Watching in Silence.
Watching
in Silence
Em
29 de abril de 2003, o Circle II Circle lançou Watching in
Silence, seu primeiro álbum de estúdio.
Além
de Zak Stevens nos vocais, o disco conta com os tecladistas Jon Oliva
e John Zahner, os guitarristas Chris Caffery e Matt La Porte, o
baixista Kevin Rothney e o baterista Christopher Kinder.
Os
amigos Dan Campbell e Jon Oliva auxiliaram Zak Stevens na produção
do disco, o qual conta com ótimas canções como “Into the Wind”
e “Face to Face”.
Em
2005, o grupo passaria por uma drástica mudança de formação que
resultou no EP chamado All That Remains.
The
Middle of Nowhere
Em
30 de agosto de 2005, o Circle II Circle lançou The Middle
of Nowhere, seu segundo álbum de estúdio.
Este
foi o primeiro álbum com a nova constituição da banda, a qual se
reuniu depois que Stevens demitiu toda a formação original, em
2003.
Como
no primeiro disco da banda, ele apresenta aparições de convidados e
créditos de composição para os antigos companheiros de Savatage, Jon Oliva e Chris Caffery.
Além
de Zachary Stevens nos vocais, o disco conta com os guitarristas Evan
Christopher e Andrew Lee, o baixista Mitch Stewart e o baterista Tom
Drennan.
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| Mitch Stewart |
Boas
faixas de The Middle of Nowhere são “Holding On” e “Faces in
the Dark”.
Burden
of Truth
O
terceiro lançamento da banda seria um álbum conceitual intitulado Burden of Truth,
baseado em torno do conceito de descendentes de Jesus e tomando como
referência o livro The Da Vinci Code, de Dan Brown. (Nota
do Blog: The Da Vinci Code (O Código Da Vinci nas edições
brasileiras e portuguesas) é um romance policial do escritor
norte-americano Dan Brown, publicado em 2003 pela editora Random
House nos EUA. É um best-seller mundial, décimo primeiro livro mais
vendido no mundo com mais de 80 milhões de cópias. Causou polêmica
ao questionar a divindade de Jesus Cristo. A maior parte do livro
desenrola-se a partir do assassinato de Jacques Saunière, curador do
museu do Louvre. Robert Langdon, Sophie Neveu e Leigh Teabing vivem
várias aventuras ao tentar desvendar códigos que deem resposta aos
enigmas que Jacques Saunière deixou no leito de morte).
Ao
contrário dos dois primeiros álbuns da banda, este disco não
possui aparições convidadas dos ex-companheiros de Savatage,
Chris Caffery e Jon Oliva.
O
conceito da história abordada pelas letras presentes no álbum foi
desenvolvido pelo vocalista Zak Stevens e pelo seu amigo produtor do
grupo, Dan Campbell.
A
capa, belíssima, foi idealizada por Dan Campbell e desenhada pelo
artista Thomas Ewerhard.
Vamos
às faixas:
WHO
AM I TO BE?
O disco é aberto com uma faixa que traz os ótimos vocais de Zak Stevens em uma sonoridade mais cadenciada, mas que conta com guitarras pesadas e marcantes. A bateria também está muito boa. Um Hard/Heavy de categoria.
A
letra é sobre a procura de si mesmo:
Who
am I to be?
You
could never see
Always
pretending
What
you are to me
What
am I to say?
When
all you do is hate
Got
some news
Nobody
wins this game
This
game
A
MATTER OF TIME
Em "A Matter of Time", o grupo aposta mais firmemente no Heavy Metal, pois a música é baseada em um bom riff, pesado e marcante. O refrão, mais suave e cadenciado, é bem legal, assim como o solo de guitarra. Ótima canção.
As
letras refletem a descoberta de Saunière:
Will
you hold on forever
To
the change that held you down
Believe
you'll never
Abandon
the way that you found
HEAL
YOU
A ótima "Heal You" traz à mente o soberbo Metal oitentista, com um riff soberano e a seção rítmica imprimindo um peso incrível, graças aos bons trabalhos do baterista Tom Drennan e do baixista Mitch Stewart. O solo de guitarra é, novamente, cativante. Grande momento do álbum!
A
letra é sobre descobertas:
All
of us falling
On
the sacred roads they've led us
Hear
the calling
They
will never forget us
REVELATIONS
A bateria se encontra ainda mais intensa na pesada "Revelations" e é o maior destaque da faixa, ao lado da ótima atuação vocal de Zak Stevens. Mesmo com um andamento mais cadenciado, o peso é constante nesta composição.
A
letra é sobre confiança:
Don't
want to let you go
Never
could let it show
Why
do I always trust you
I
cannot let it go
I've
carried on the line
And
made the most of time
Waiting
for this day to arrive
YOUR
REALITY
Em "Your Reality", o Circle II Circle pisa no freio e opta por um andamento mais arrastado. A melodia é mais suave e o baixo de Mitch Stewart domina. O refrão é mais pesado e intenso, em uma construção interessante, mesmo que não inovativa. Excelente atuação de Zak Stevens.
A
letra é sobre como lidar com novas descobertas:
How
will you deal with things
You
perceive as real
What's
left to offer
Time
to reach right down
Into
what you feel
At
the cost of trust
Would
they seek you again
EVERMORE
Faixa mais curta do disco, o grupo faz uma abordagem muito pesada e técnica, trazendo à memória, os momentos intensos do Dream Theater. Apesar de sua duração efêmera, é uma canção interessante.
A
letra critica a religião:
All
of the people who tried
To
make peace
And
they died
All
of their fortresses shine
Like
the cross
As
they ride
Never
unfolding the truth
Still
unknown
Altering
consciousness
Evil
has flown
Following
mercy alone
The
masses have grown
THE
BLACK
"The Black" traz uma sonoridade muito interessante, alternando passagens mais suaves e melódicas com outras pesadas e muito intensas. Os vocais de Zak Stevens estão excelentes. A estrutura da composição é muito semelhante ao que Stevens fazia no Savatage.
A
letra é um desejo de libertação:
Into
the black
With
a final chance to save my soul
Waiting
for something
To
release me from this hold
MESSIAH
"Messiah" é um deleite para fãs de Heavy Metal, pois é uma composição pesada, intensa e que, sem firulas, vai diretamente ao ponto. As guitarras estão ótimas muito por conta do afiado trabalho da seção rítmica a qual, mesmo de modo suave, flerta com o Thrash.
A
letra menciona um novo salvador:
Still
the world keeps turning
Through
the maze of lies
I
am returning
To
replace your lives
Feel
them closing in
Follow
me this night
Blood
is their desire
Enter
the new Messiah
SENTENCED
"Sentenced" traz uma sonoridade mais suave e melodiosa ao trabalho. Zak Stevens, como de costuma, brilha nos vocais enquanto as guitarras aparecem bem, especialmente nos solos. Boa composição.
A
letra revela consequências de uma nova vida:
Why
does it always have to end?
I
had all the perfect things
Never
feels like things will change
All
that's left are fears and shame
BURDEN
OF TRUTH
"Burden of Truth" traz a maior faixa do disco homônimo, beirando os 7 minutos de duração. Em uma construção muito bonita, o grupo apresenta uma musicalidade Hard/Heavy em que alterna passagens intensas com suaves, mas sem perder o peso. Novamente, o Savatage volta à mente.
A
letra questiona novos caminhos:
Find
a new horizon
In
the ways
That
we have found
And
we'll find
A
better life
Like
the times we had
LIVE
AS ONE
A décima-primeira - e última - faixa de Burden of Truth é "Live as One". O álbum é encerrado com um Heavy Metal padrão, trazendo peso e melodia se complementando de modo harmônico e muito competente. Boa atuação de Stevens e ótimo solo de guitarra.
A
letra revela um mundo que perdeu suas crenças:
How
can we learn to live as one
How
can we run from things we've done
Could
we ever let it go
How
can we learn to live as one
Is
there nothing left to follow
Considerações
Finais
Embora
seja um ótimo trabalho, acabou não repercutindo em termos das
principais paradas de sucesso do mundo, ou seja, a norte-americana e
a britânica.
A
crítica especializada normalmente elogia o disco. O site AllMusic
dá uma nota 3 (de 5) ao trabalho.
Scott
Alisoglu, do site Blabbermouth, dá ao álbum uma nota 8,5 (de
10), afirmando: “Melodia é a chave e Stevens, juntamente aos
guitarristas Andy Lee e Evan Christopher, o baixista Mitch Stewart e
o baterista Tom Drennan entregam-na de uma maneira que permanece com
você de música em música. É um álbum em que você pode escolher
qualquer corte e delirar com os ascendentes vocais de Stevens e a
performance sincera da banda”.
Por
fim, Alisoglu define: “Além da queixa sobre a mixagem de som (...)
não consigo achar nada errado com esse álbum. Burden of Truth
merece ser ouvido por muito mais pessoas que provavelmente terão a
chance de verificá-lo. É um dos melhores álbuns melódicos de hard
rock/metal de 2006”.
Logo
depois do lançamento do disco, tanto Zak Stevens quanto o Circle
II Circle assinaram um acordo de gestão com a Intromental
Management.
Delusions
of Grandeur, quarto álbum de estúdio do grupo, foi lançado em
agosto de 2008.
Formação:
Zak
Stevens - Vocal
Paul
Michael "Mitch" Stewart - Baixo, Teclados, Guitarras,
Backing Vocals
Andrew
Lee - Guitarras, Backing Vocals
Tom
Drennan - Bateria, Backing Vocals
Evan
Christopher - Guitarras, Backing Vocals
Faixas:
01.
Who Am I to Be? (Stevens/Stewart/Lee) - 5:03
02.
A Matter of Time (Stevens/Stewart) - 4:08
03.
Heal You (Stevens/Stewart/Lee) - 4:16
04.
Revelations (Stevens/Stewart) - 3:41
05.
Your Reality (Stevens/Stewart) - 4:29
06.
Evermore (Stevens/Stewart) - 2:53
07.
The Black (Stevens/Stewart/Lee) - 4:55
08.
Messiah (Stevens/Stewart) - 3:31
09.
Sentenced (Stevens/Stewart/Lee) - 4:58
10.
Burden of Truth (Stevens/Stewart) - 6:44
11.
Live as One (Stevens/Stewart) – 5:05
Letras:
Para
o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a:
https://www.letras.mus.br/circle-ii-circle/
Opinião
do Blog:
Em 2006, Zak Stevens já era um nome conhecido e consagrado, ao menos entre o público fiel do Heavy Metal que acompanhava a lendária banda que o consagrou: o fantástico Savatage. Com ela, Stevens gravou discos muito bons como The Wake of Magellan, de 1997.
Após deixar o Savatage e constituir o Circle II Circle, Stevens ainda foi auxiliado por ex-companheiros de banda, Jon Oliva e Chris Caffery, em seus 2 primeiros discos no novo conjunto, Watching in Silence e The Middle of Nowhere.
Deste modo, Burden of Truth é o primeiro esforço de Stevens sem seus amigos do Savatage. E se pode afirmar que o Circle II Circle se saiu de modo excelente, superando expectativas.
O primeiro ponto é que Zak Stevens se cercou de um grupo bastante competente de músicos e quem ouve o disco percebe o ótimo trabalho tanto nas guitarras quanto na seção rítmica. Claro, Stevens tem uma atuação excelente e é o destaque individual do álbum.
O segundo ponto é que a sonoridade padrão escolhida é o Heavy Metal, o qual se apresenta moderno, mas com ótimos referenciais. Por vezes, a musicalidade flerta com o Hard Rock e até com o Metal Progressivo, mas a referência principal é, ainda, o próprio Savatage.
Para tornarem as coisas ainda mais difíceis, Stevens resolveu que Burden of Truth seria um álbum conceitual, baseado na obra Código da Vinci. Mas recomendamos que o leitor ouça o trabalho acompanhando as letras e perceba que os compositores conseguiram, de modo muito orgânico e eficiente, criarem o arcabouço temático entre as composições e o ligarem à instrumentalidade sonora da obra.
Sendo assim, Burden of Truth não possui canções de enchimento ou desnecessárias, constituindo-se em um álbum coeso e consideravelmente homogêneo.
O Heavy Metal clássico é reverenciado na ótima "A Matter of Time". Toques de 'Prog Metal' são palpáveis em "Evermore" enquanto "Your Reality" é intensa e tocante, ao mesmo tempo!
Mas o Circle II Circle caprichou no Hard/Heavy de "Heal You", na belíssima mistura de melodias da faixa-título, "Burden of Truth", e no peso absurdo de "The Black", possivelmente a preferida do RAC.
Concluindo, os méritos de Burden of Truth não estão em tentar construir nada novo ou ainda revolucionário, mas são facilmente encontrados na qualidade tanto de suas composições quanto na sua brilhante execução. O Circle II Circle bebeu em ótimas fontes, principalmente no sensacional Savatage (como não poderia deixar de ser) e trouxe, em Burden of Truth, um dos álbuns mais divertidos de Heavy Metal dos anos 2000, ao menos para o Blog. Altamente recomendado!
FLOWER TRAVELLIN' BAND - SATORI (1971)
Satori
é o segundo álbum de estúdio da banda japonesa chamada Flower
Travellin’ Band. Seu lançamento oficial aconteceu em 5 de abril de
1971, com as gravações ocorrendo durante o ano anterior, 1970. A
produção ficou sob responsabilidade de Yuya Uchida e Ikuzo Orita e
os selos responsáveis foram o Atlantic Records e o GRT Records.
FLOWER TRAVELLIN' BAND - SATORI (1971)
Satori
é o segundo álbum de estúdio da banda japonesa chamada Flower
Travellin’ Band. Seu lançamento oficial aconteceu em 5 de abril de
1971, com as gravações ocorrendo durante o ano anterior, 1970. A
produção ficou sob responsabilidade de Yuya Uchida e Ikuzo Orita e
os selos responsáveis foram o Atlantic Records e o GRT Records.
Não
tão conhecida do público em geral, a Flower Travellin’ Band
faz sua estreia aqui no RAC, com seu álbum mais
emblemático. Brevemente, o Blog vai tratar sobre as origens do grupo
para depois se abordar o disco, conforme a tradição.
Origens
A
história da Flower Travellin’ Band está intrinsecamente
ligada à figura de Yuya Uchida, um japonês que é cantor, produtor
e ator.
Uchida
abandonou o ensino médio aos 17 anos e começou sua carreira musical
no ano de 1957. Ele se tornou amigo de John Lennon depois que
se apresentou como ato de abertura para os Beatles, em sua
turnê de 1966, no Japão.
Chocado
após assistir a Jimi Hendrix e ao Cream tocarem em
Londres, em 1967, Uchida voltou para seu país e quis apresentar um
som semelhante ao Japão. Ele formou a Yuya Uchida & The
Flowers, a qual lançou o álbum Challenge!, em 1969, que
é composto quase inteiramente de covers de canções de rock
psicodélico ocidental.
Challenge!
apresentava versões para músicas de Jimi Hendrix, Cream,
Jefferson Airplane e Big Brother and The
Holding Company, além de uma música original. A capa causou uma
reviravolta nos meios de comunicação japoneses, pois mostrava cada
membro do grupo posando nu.
Em
1969, após o lançamento do álbum; a vocalista Remi Aso e o
guitarrista Katsuhiko Kobayashi se mudaram para os Estados Unidos.
Yuya dispensou todos os membros restantes, exceto o baterista George
Wada, recrutando o guitarrista Hideki Ishima, o vocalista Joe
Yamanaka e o baixista Jun Kobayashi.
A
Flower Travellin’ Band
Deste
modo, a Flower Travellin 'Band foi formada a partir de sua
‘mãe’, ou seja, a Yuya Uchida & The Flowers.
O
grupo consistia do vocalista Joe Yamanaka, oriundo do grupo 4.9.1;
do guitarrista Hideki Ishima, vindo do The Beavers;
o baixista Jun
Kobayashi, do conjunto TaxMan e o baterista George Wada
remanescente da The Flowers.
No
início, Yuya Uchida cantava os Backing Vocals, pandeiro e era MC;
como membro convidado. Depois ele se dedicou a ser o produtor da
banda. O Flower Travellin 'Band foi criado como uma banda que
atrairia o público internacional.
A
banda tocou no HEAD ROCK OF THE THIRD WORLD (evento de
rock realizado no Auditório Kyoritsu Koudo, em Tóquio), também
estrelado por Zuno Keisatsu, The Mops, The Golden
Cups e muitos outros projetos. Este concerto foi a estreia
oficial da banda como The Flower Travellin' Band.
O
primeiro lançamento oficial do grupo foi como banda de apoio para o
trompetista japonês de Jazz, Terumasa Hino, em seu single chamado
“Clash/Doop”.
A
Flower Travellin’ Band tocou no Minimal Sound Of Rider,
durante a Exposição Mundial de Osaka. Foi neste evento que o conjunto fez amizade com o grupo canadense Lighthouse, o qual estava no
Japão se apresentando no ‘Pavilhão do Canadá’, por conta da
Exposição de Osaka.
Foi
esta amizade com a Lighthouse que gerou a expedição da
Flower Travellin’ Band para o Canadá.
![]() |
| Joe Yamanaka |
Em
outubro de 1970, a Flower Travellin’ Band decidiu se mudar
para o Canadá. O grupo tocou no Concerto de Farewell, no Sankei
Hall, em Otemachi, Tóquio. No dia 21 daquele mesmo mês, o conjunto
lançou seu primeiro álbum de estúdio, Anywhere.
Anywhere
Como
foi dito, em 21 de outubro de 1970, foi lançado o primeiro álbum da
Flower Travellin’ Band, Anywhere.
O
disco consistia, basicamente, nas versões para 4 músicas:
“Louisiana Blues”, de Muddy Waters; “Black Sabbath”,
do Black Sabbath; “House of the Rising Sun”, do Animals;
e “21st Century Schizoid Man”, do King Crimson.
Além
disto, a autoral “Anywhere” abria e fechava o álbum.
A
musicalidade do disco oscilava entre a psicodelia, o peso do Heavy Metal e a ousadia do Rock Progressivo; ressaltando o caráter de
improvisação musical presente na sonoridade do conjunto.
Viagem
para Toronto
Durante
o mês de novembro de 1970, Yuya Uchida viajou para Toronto, no
Canadá, e também foi a Nova York, onde deu entrevistas. Uchida
preparava alguma mudança do conjunto.
Em 5
de dezembro de 1970, a Flower Travellin’ Band viajava para
Toronto, onde se encontrariam com os amigos do Lighthouse,
especialmente o líder do grupo, Paul Hoffert, estabelecendo uma base
na cidade.
![]() |
| A Flower Travellin' Band |
A
história de Satori
Como
foi dito, na Expo '70, a banda de rock canadense Lighthouse
viu a Flower Travellin' Band tocar, e, gostando do que viu, sugeriu que os japoneses fossem para o Canadá.
Percebendo
a chance de popularidade internacional, o grupo rapidamente gravou
Satori, para ter algo para levar ao Canadá consigo. (Nota
do Blog: Satori é um termo japonês budista para iluminação. A
palavra significa literalmente ‘compreensão’. É algumas vezes
livremente tratada como sinônimo de Kensho, mas Kensho refere-se à
primeira percepção da Natureza Búdica ou Verdadeira Natureza,
algumas vezes conhecida como ‘acordar’. Diferentemente do kensho,
que não é um estado permanente de iluminação mas uma visão clara
da natureza última da existência, o satori refere-se a um estado de
iluminação mais profundo e duradouro. É costume portanto
utilizar-se a palavra satori, ao invés de kensho, quando
referindo-se aos estados de iluminação do Buda e dos Patriarcas).
Cansada
de se limitar a fazer versões, principalmente de bandas de
blues/rock ocidentais, a Flower Travellin' Band queria criar
seu próprio material. Os membros se reuniram e o guitarrista Hideki
Ishima apresentou riffs enquanto todos tentavam novas ideias.
Ishima
estava interessado em música indiana, então o aspecto oriental
tornou-se parte do som da banda.
O
vocalista Joe Yamanaka revelou que há relativamente poucas letras no
álbum por conta do amor da banda por improvisação. Ele afirmou
que, por causa de não se pode alterar a direção das músicas
repentinamente com as letras, isto é plenamente possível com a
instrumentação. Desta forma, Joe recuou conscientemente e confiou
nos outros músicos.
![]() |
| Hideki Ishima |
O
álbum foi gravado em apenas dois dias; um dia de gravação e o
outro para a mixagem.
A
produção ficou por conta do produtor e idealizador do conjunto,
Yuya Uchida, juntamente a Ikuzo Orita. A capa possui clara inspiração
budista e é uma arte de Shinobu Ishimaru. A gravadora Atlantic
Records foi a responsável por lançar o álbum originalmente no
Japão.
Vamos
às faixas:
SATORI
PART I
A primeira canção do álbum apresenta uma atmosfera densa e sombria. A seção rítmica formada por Jun Kozuki e George Wada confere bastante peso, mas é a guitarra de Hideki Ishima que lidera a musicalidade. Os vocais de Joe Yamanaka também estão de acordo com o aspecto mais escurecido da sonoridade. Há muita influência de Black Sabbath em "Satori Part I".
A
letra é em sentido de doação:
Under
rough skies survey a day around
Charging
through doors, going nowhere and everywhere
Just
want to keep on moving and grooving
Sharing
my trip with everything, with everything
Em
conjunto com “Satori Part II”, foi lançada como single, pela
Atlantic Records, no Canadá.
SATORI
PART II
O riff principal de "Satori Part II" é incrível graças ao talento de Hideki Ishima. Ele possui uma clara influência da música asiática enquanto o peso da faixa anterior é consideravelmente abandonado, com a banda desenvolvendo um Rock com toque psicodélico, mas, como afirmado, inegável origem oriental e hindu. Brilhante!
A
letra é um grito de libertação:
There
is no up or down
Your
truth is the only master
Death
is made by the living
Pain
is only intense to you
The
sun shines every day
The
sun shines every day
“Satori
Part II” acabou se tornando um hit nas rádios de Toronto,
atingindo a 8ª posição das paradas locais.
SATORI
PART III
A instrumental "Satori Part III" possui um andamento mais arrastado em sua primeira metade e, embora o trabalho da seção rítmica seja excelente, a canção é dominada pelo guitarrista Hideki Ishima. Em uma espécie de Hard/Prog, a segunda metade da faixa ganha em intensidade e ritmo, mas mantendo o nível estratosférico da atuação de Ishima. Espetacular!
SATORI
PART IV
"Satori Part IV" apresenta mais influências da cena sessentista, sendo uma canção com uma atmosfera menos densa em seus minutos iniciais, contando com a presença de uma gaita inspirada, em um toque Bluesy 'zeppeliniano'. Os vocais de Yamanaka são ótimos e o solo de guitarra de Ishima, na parte central da música, evoca o lendário Jimi Hendrix. Outra faixa magnífica.
Obs: não encontrei fonte com as letras.
SATORI
PART V
Em "Satori Part V", o clima denso e mais sombrio retorna e os gritos angustiantes de Joe Yamanaka contribuem decisivamente para a noção de desespero. A instrumentalidade brinca com mudanças de dinâmica e andamento da faixa, em uma estrutura que remete ao Prog, mas sem perder o peso do Hard. Ishima é, novamente, brilhante!
Considerações
Finais
Embora
de uma qualidade extraordinária, Satori foi um completo
fracasso comercial. Desta forma, acabou não repercutindo em termos
das principais paradas de sucesso do mundo, a norte-americana
(Billboard) e a britânica.
A
GRT Records foi o selo responsável pelo lançamento do disco no
Canadá e nos Estados Unidos. A versão americana é diferente da
original japonesa, pois continha músicas do seu próximo álbum,
Made in Japan, e a faixa bônus “Lullaby”. Além disso,
foi produzido pelo amigo Paul Hoffert, da banda Lighthouse.
A
versão japonesa original foi reeditada em CD pela Warner Music, em
1988. Um relançamento, em 1991, continha a faixa bônus “Map”, a
qual foi composta por Kuni Kawachi, originalmente presente em seu
álbum Kirikyogen, que apresentava a participação de Joe
Yamanaka e de Hideki Ishima, sob o nome ‘Works Composed Mainly By
Humans’. Esta versão da música foi lançada, anteriormente, como
single pela Flower Travellin' Band.
O
álbum foi remasterizado digitalmente, em 1998. Em 2009, foi
remasterizado uma outra vez, agora no novo formato SHM-CD.
Embora
tenha fracassado em termos comerciais, atualmente, Satori
possui um status cult, com a crítica reconhecendo seu valor.
Em
setembro de 2007, a revista Rolling Stone Japan avaliou Satori
como o 71º colocado de sua lista dos ‘100 melhores álbuns de rock
japonês de todos os tempos’.
David
Fricke, da versão norte-americana da revista Rolling Stone,
declarou que Satori é seu ‘álbum de rock japonês favorito
de todos os tempos’.
Hernan
M. Campbell, do site Sputnikmusic, afirma que Satori,
com seus traços de Heavy Metal, Rock Progressivo e Psicodelia,
captura “o eclecticismo da cena do rock dos anos 70 e todas as
diferentes filosofias que evoluíram constantemente em gêneros
totalmente reconhecidos”.
Dando
ao álbum uma classificação de 4.8 em 5, Campbell também
sintetiza, assim como o trabalho anterior de Ishima e Yamanaka, no
álbum de Kuni Kawachi, Kirikyogen, “o som formidável e
ominoso que se tornaria a essência do doom metal”.
Thom
Jurek, do site Allmusic, deu ao álbum a nota 4,5 de 5, e fez a
escolha dele como o melhor disco da banda, chamando-o de “um
verdadeiro clássico”. Jurek o sintetiza perfeitamente, afirmando:
“Satori é uma jornada para o centro de algum lugar que
parece familiar, mas que nunca antes foi visitado”.
Ainda
em 1971, a Flower Travellin' Band atuou como banda de abertura
para a ‘The Lighthouse World Tour’, do grupo canadense
Lighthouse, que começou a partir do Ontario Place, em
Toronto.
O
grupo foi amplamente bem-aceito em muitos lugares e recebeu críticas
criativas em muitos jornais locais. Durante esta turnê, a Flower
Travelin’ Band tocou com Emerson, Lake & Palmer,
Blues Project, Chase e muitos outros conjuntos
importantes.
Enquanto
ainda estavam em Toronto, a banda gravou seu terceiro álbum de
estúdio, Made in Japan, e que seria lançado em fevereiro de
1972.
Formação:
Joe
Yamanaka - Vocal
Hideki
Ishima - Guitarra
Jun
Kozuki - Baixo
George
Wada - Bateria
Faixas:
01.
Satori Part I (Yamanaka/Ishima/Kozuki/Wada) - 5:25
02.
Satori Part II (Yamanaka/Ishima/Kozuki/Wada) - 7:06
03.
Satori Part III (Yamanaka/Ishima/Kozuki/Wada) - 10:44
04.
Satori Part IV (Yamanaka/Ishima/Kozuki/Wada) - 11:01
05.
Satori Part V (Yamanaka/Ishima/Kozuki/Wada) - 7:58
Letras:
Para
o conteúdo completo das letras, recomenda-se o acesso a:
https://genius.com/albums/Flower-travellin-band/Satori
Opinião
do Blog:
O público em geral dificilmente conhece e/ou já ouviu falar, mas, entre os aficionados em música setentista, este grupo é cultuado e uma referência: a Flower Travellin' Band.
Finalmente o RAC conseguiu trazer esta incrível banda para nossas páginas e com o que, pelo menos para quem faz o site, o seu melhor álbum: Satori.
Até mesmo como apontam as capas de seus outros discos, é muito perceptível, para os fãs mais atentos, como a Flower Travellin' Band era uma banda que apostava na ousadia. Não apenas no visual, marketing ou atitude, também em sua sonoridade.
Conjugando o que havia de melhor no Rock em seu tempo (e que época!) é bem fácil para ouvintes mais experientes perceberem a gama de ótimas influências que compunham o alicerce musical sobre o qual a Flower Travellin' Band construía sua sonoridade. Progressivo, Psicodélico, música Hindu/Oriental, Hard e até mesmo Heavy compunham sua musicalidade.
Isto somente é possível pelo fato dos músicos que compunham a banda serem bem acima da média. Joe Yamanaka é um bom vocalista enquanto Jun Kozuki e George Wada formavam uma seção rítmica de uma solidez impactante.
Mas, pelo menos para o RAC, o grande destaque é o guitarrista Hideki Ishima. Riffs impressionantes e solos estupendos colocam Ishima em um patamar muito elevado em termos de guitarristas.
Satori representa o ápice de tudo isto em conjunto. Embora esteja fisicamente dividido em 5 canções, o disco é muito melhor compreendido como uma estrutura única, uniforme e em constante mutação.
Enquanto a "Part I" remete diretamente ao incipiente Heavy Metal, em clara influência de Black Sabbath, "Part III" aponta referências de King Crimson, enquanto a "Part IV" apresenta que os caras beberam no Hard Bluesy de grupos como o Led Zeppelin.
Mas estas são as referências mais óbvias e fáceis de serem percebidas. Satori é bem mais que isso.
Seu arcabouço conceitual, construído envolto à ideia advinda da palavra Satori (iluminação), é plenamente desenvolvido com a perícia do grupo em construir ambientes e atmosferas diversas com sua musicalidade. Escuridão, angústia, diversão, enfim, traços que compõem a personalidade humana são apresentados no álbum, através das abordagens musicais de suas canções, refletidas naquilo que ouvinte percebe.
Enfim, Satori é um álbum magnífico de uma das bandas mais legais da virada entre as décadas de 60 e 70. A Flower Travellin' Band merece ser conhecida por todos os amantes da boa música. Satori é uma obra-prima que deve ser ouvida constante e incansavelmente.
DAVID BOWIE - THE MAN WHO SOLD THE WORLD (1970)
The
Man Who Sold the World é o terceiro álbum de estúdio do músico
britânico chamado David Bowie. Seu lançamento oficial aconteceu em
4 de novembro de 1970, através do selo Mercury Records. As gravações
ocorreram entre os dias 18 de abril e 22 de maio daquele mesmo ano. A
produção ficou a cargo de Tony Visconti.
DAVID BOWIE - THE MAN WHO SOLD THE WORLD (1970)
The
Man Who Sold the World é o terceiro álbum de estúdio do músico
britânico chamado David Bowie. Seu lançamento oficial aconteceu em
4 de novembro de 1970, através do selo Mercury Records. As gravações
ocorreram entre os dias 18 de abril e 22 de maio daquele mesmo ano. A
produção ficou a cargo de Tony Visconti.
Enfim
chegou o momento em que um dos maiores artistas do século passado
dará às caras no RAC: David Bowie.
Conforme a tradição, resumidamente se falará das origens do músico
para depois se ater ao álbum propriamente dito.
Primeiros
passos
David
Robert Jones nasceu em 8 de janeiro de 1947, em Brixton, no sul de
Londres, na Inglaterra. Sua mãe, Margaret, tinha ascendência
irlandesa e trabalhava como garçonete enquanto seu pai, Haywood, de
Yorkshire, era um oficial de promoções da instituição de caridade
infantil Barnardo. (Nota do Blog: a
Barnardo's é uma instituição de caridade britânica, fundada
por Thomas John Barnardo, em 1866, para cuidar de crianças e jovens
em estado de vulnerabilidade).
Bowie
frequentou a Stockwell Infants School até os seis anos de idade,
adquirindo uma reputação como uma criança talentosa e solitária -
e um lutador desafiante.
Em
1953, Bowie mudou-se com sua família para o subúrbio de
Bromley, onde, dois anos depois, ele começou a frequentar a Burnt
Ash Junior School. Sua voz foi considerada ‘adequada’ pelo coral
da escola e ele demonstrou habilidades acima da média ao tocar
flauta.
Com
a idade de nove anos, sua habilidade na dança, durante as novas
aulas de música e movimento, foi considerada impressionantemente
imaginativa: os professores chamaram suas interpretações de
‘vividamente artísticas’ e seu equilíbrio de ‘surpreendente’,
ambos, para uma criança.
No
mesmo ano, seu interesse pela música foi ainda estimulado quando seu
pai trouxe para casa uma coleção de vinis americanos de artistas que incluíam nomes como Teenagers, The Platters, Fats
Domino, Elvis Presley e Little Richard. Ao ouvir a
música “Tutti Frutti”, de Little Richard, Bowie diria
anos mais tarde: “Eu havia ouvido Deus”. (Nota do Blog:
Richard Wayne Penniman, conhecido como Little Richard, é um
músico, cantor, ator, comediante e compositor norte-americano cujos
trabalhos mais célebres são originários de meados da década de
1950, quando sua música dinâmica e sua aparição carismática
lançaram as bases para o rock and roll).
Também
Elvis Presley teve uma grande influência sobre o jovem Bowie,
incentivando-o a praticar instrumentos como o ukulele, uma espécie
de violão havaiano e o washtub bass. (Nota do Blog:
O washtub bass, ou gutbucket, é um instrumento de corda usado na
música folclórica americana que usa uma banheira de metal como um
ressonador).
Bowie
estudou arte, música e design, incluindo layout e composição.
Depois que Terry Burns, seu meio-irmão, apresentou-o ao jazz
moderno, seu entusiasmo por músicos excepcionais como Charles
Mingus e John Coltrane levou sua mãe a lhe dar um
saxofone Grafton em 1961; e ele logo estava recebendo lições
de um músico local.
Bowie
teve uma séria lesão na escola, em 1962, quando seu amigo George
Underwood perfurou seu olho esquerdo durante uma briga por causa de
uma garota. Após uma série de operações, durante uma
hospitalização de quatro meses, seus médicos determinaram que o
dano não poderia ser completamente reparado e Bowie ficou com
a percepção de profundidade defeituosa e a pupila permanentemente
dilatada, o que deu uma falsa impressão da mudança na cor de sua
íris.
![]() |
| David Bowie |
Apesar
da briga, Underwood e Bowie permaneceram bons amigos, e
Underwood passou a criar a obra da capa para os primeiros álbuns de
David.
Início
da carreira musical
Em
1962, Bowie formou sua primeira banda, com 15 anos. Tocando
rock baseado em guitarras, em encontros e casamentos locais para
jovens, os the Konrads apresentava uma formação que variava entre
quatro e oito membros, com Underwood entre eles.
Quando
Bowie deixou a escola técnica, no ano seguinte, ele informou
a seus pais sobre sua intenção de se tornar uma estrela pop. Sua
mãe prontamente conseguiu-o um emprego como assistente de
eletricista.
Frustrado
por conta das limitadas aspirações de seus companheiros de banda,
Bowie deixou o Konrads e se juntou a outro grupo, o King Bees.
Ele escreveu para o recém bem-sucedido empresário, John Bloom,
convidando-o a “fazer por nós o que Brian Epstein fez pelos
Beatles - e conseguir outro milhão”.
Bloom
não respondeu à oferta, mas fez referência a um parceiro de Dick
James, chamado Leslie Conn, originando o primeiro contrato de gestão
pessoal de Bowie. (Nota do Blog: Dick James, nascido
Leon Isaac Vapnick, em Londres, foi um editor e cantor musical
britânico e, juntamente com seu filho Stephen, fundou o selo e os
estúdios de gravação DJM, bem como (com Brian Epstein) a editora
dos Beatles, Northern Songs).
Single
e mais mudanças
Leslie
Conn rapidamente começou a promover Bowie. O single de
estreia do cantor, “Liza Jane”, creditado a Davie Jones e ao King
Bees, não teve sucesso comercial.
Insatisfeitos
com o King Bees e seu repertório que incluíam covers de clássicos
do blues de Howlin’ Wolf e Willie Dixon, Bowie desistiu da
banda para menos de um mês depois se juntar ao Manish Boys, outro
conjunto de blues, mas que incorporava elementos de folk e soul - “Eu
sonhava em ser seu Mick Jagger”, Bowie recordava.
Seu
cover para “I Pity the Fool”, de Bobby Bland, não obteve
mais sucesso que “Liza Jane”, e Bowie logo se juntou ao Lower
Third, um trio de blues fortemente influenciado pelo The Who.
O single “You've Got a Habit of Leaving” não teve desempenho
melhor, sinalizando o fim do contrato com Leslie Conn.
Brevemente,
Bowie se manteve com o Lower Third. Seu novo manager, Ralph
Horton, o qual mais tarde seria importante em sua transição para artista
solo, logo testemunhou a mudança de Bowie para outro grupo, o
Buzz, o qual propiciou o quinto lançamento sem sucesso do cantor,
“Do Anything You Say”.
Mesmo
com o Buzz, Bowie também se juntou ao Riot Squad;
cujas gravações incluíam uma canção de David e material
cover do Velvet Underground, mas não foram lançadas. Ken
Pitt, apresentado por Horton, assumiu o cargo de manager de Bowie.
Mudança
de nome artístico e primeiro álbum
Insatisfeito
com seu nome artístico como Davy (e Davie) Jones, que em meados da
década de 1960 foi confundido com Davy Jones, dos Monkees,
Bowie se renomeou inspirado no pioneiro americano do século XIX
James Bowie. (Nota do Blog: James ‘Jim’ Bowie foi um
pioneiro americano do século XIX, que desempenhou um papel
proeminente na Revolução do Texas, culminando em sua morte na
Batalha do Álamo. Suas histórias como um lutador e homem da
fronteira, tanto reais quanto fictícias, fizeram dele uma figura
lendária na história do Texas e um herói popular da cultura
americana).
![]() |
| David Bowie, em 1970 |
Seu
single como artista solo, lançado em abril de 1967, “The Laughing
Gnome”, não repercutiu em termos de paradas de sucesso. Apenas
seis semanas depois, houve o lançamento de seu álbum de estreia,
David Bowie, uma mistura de pop, psicodelia e music hall, mas
que encontrou o mesmo destino. Foi seu último lançamento por cerca
dois anos.
Space
Oddity
Bowie
conheceu a dançarina Lindsay Kemp, em 1967, e se matriculou em sua
aula de dança, no London Dance Center. Ele comentou, em 1972, que a
reunião com Kemp aconteceu quando seu interesse pela imagem
“realmente floresceu”.
“Over
the Wall We Go” tornou-se um single, em 1967, entrando para a
disputa do Oscar; outra composição de Bowie, “Silly Boy
Blue”, foi lançada por Billy Fury no ano seguinte.
Em
janeiro de 1968, Kemp coreografou uma cena de dança para uma peça
da BBC, The Pistol Shot, na série Theatre 625, e usou Bowie
com uma dançarina, Hermione Farthingale; o casal começou a namorar
e se mudou para um apartamento em Londres.
Ao
tocar guitarra acústica, Farthingale formou um grupo com Bowie
e o guitarrista John Hutchinson; entre setembro de 1968 e início de
1969, o trio fez um pequeno número de concertos que combinavam folk,
merseybeat, poesia e mímica.
Bowie
e Farthingale romperam no início de 1969, quando ela foi para a
Noruega para participar de um filme, Song of Norway; isso o
afetou e várias canções, como “Letter to Hermione” e “Life
on Mars?” fazem referência a ela. Para o vídeo que acompanha
“Where Are We Now?”, ele usou uma camiseta com as palavras “m/s
Song of Norway”. Eles ficaram juntos pela última vez em janeiro de
1969, na filmagem de Love You till Tuesday, um filme de 30
minutos que não foi lançado até 1984.
Após
a ruptura com Farthingale, Bowie se mudou, com Mary Finnigan, como
seu inquilino. Durante este período, ele apareceu em um comercial
dos sorvetes Lyons Maid e foi rejeitado para outro do Kit Kat.
Entre
fevereiro e março de 1969, ele realizou uma breve turnê com a dupla
de Marc Bolan, Tyrannosaurus Rex, realizando um ato de mímica.
Em 11 de julho de 1969, “Space Oddity” foi lançado, cinco dias
antes do lançamento da Apollo 11 e alcançou o Top 5 no Reino
Unido.
Continuando
com a divergência entre rock and roll e blues, iniciados por seu
trabalho com Farthingale, Bowie juntou forças com Finnigan,
Christina Ostrom e Barrie Jackson para se apresentar em um clube
popular nas noites de domingo, no pub Three Tuns, em Beckenham High
Street.
O
popular movimento Arts Lab, o qual influenciou Bowie,
organizou um festival gratuito, em um parque local, e tornou-se o
tema de sua música “Memory of a Free Festival”.
O
segundo álbum de Bowie saiu em novembro; originalmente
emitido no Reino Unido com o nome David Bowie, causando alguma
confusão com seu antecessor de mesmo nome, e o lançamento nos EUA
foi intitulado, inicialmente, Man of Words/Man of Music.
O
disco foi reeditado, internacionalmente, em 1972, pela RCA Records,
com o nome de Space Oddity. Apresentando letras filosóficas
pós-hippie sobre paz, amor e moralidade, tinha uma sonoridade
apostando em um rock acústico popular, ocasionalmente fortificado
pelo Hard Rock, e o álbum não foi um sucesso comercial no momento
de seu lançamento.
Já
em 1972, atingiria a 17ª posição da principal parada britânica. A
faixa “Space Oddity” se tornaria um clássico da carreira do
músico.
Bowie
conheceu Angela Barnett, em abril de 1969. Eles se casaram dentro de
um ano. Seu impacto sobre ele foi imediato e seu envolvimento em sua
carreira de longo alcance, deixando o manager de Bowie, Ken
Pitt, com influência limitada – e que ele acharia frustrante.
Tendo
se estabelecido como um artista solo em Space Oddity, Bowie
começou a sentir falta de uma banda em tempo integral, para shows e
gravações - pessoas com as quais ele poderia se relacionar
pessoalmente.
Uma
banda foi devidamente reunida: John Cambridge, um baterista que Bowie
conheceu no Arts Lab, juntou-se a Tony Visconti no baixo e Mick
Ronson na guitarra. Conhecido como the Hype, os colegas
de grupo criaram personagens para si próprios e usaram trajes
elaborados, que prefiguravam o estilo glam dos Spiders
from Mars.
Depois
de um desastroso show de abertura. no London Roundhouse, eles
voltaram a uma configuração apresentando Bowie como artista
solo.
O
trabalho inicial, no estúdio, foi prejudicado por um acalorado
desacordo entre Bowie e Cambridge, por conta do estilo de
bateria do último. Tudo veio à tona quando um furioso Bowie
acusou o baterista de distúrbio, exclamando: “Você está fodendo
meu álbum”.
![]() |
| Bowie com Mick Ronson |
Cambridge
saiu sumariamente e foi substituído por Mick Woodmansey. Pouco tempo
depois, o cantor demitiu seu manager e o substituiu por Tony Defries.
Isso resultou em anos de litígio que se concluíram com Bowie
tendo que pagar uma compensação a Pitt.
The
Man Who Sold the World
Então,
se deu o tempo de preparar seu terceiro disco de estúdio, o que se
tornaria The Man Who Sold the World.
O
álbum foi composto e ensaiado na casa de David Bowie em
Haddon Hall, Beckenham, uma mansão eduardiana convertida em um bloco
de apartamentos a qual foi descrita, por um visitante, como tendo um
ambiente ‘como a sala de estar de Dracula’.
Como
Bowie estava preocupado com sua nova esposa na época, Angie,
as músicas foram organizadas, em grande parte, pelo guitarrista Mick
Ronson e pelo baixista/produtor Tony Visconti.
Embora
Bowie seja oficialmente creditado como compositor de toda a
música no álbum, o biógrafo Peter Doggett citou Visconti afirmando
que “as músicas foram escritas por todos nós (quatro). Nós
ficamos no porão, e Bowie simplesmente dizia se gostava ou
não”.
Na
narrativa de Doggett, “A banda (às vezes com guitarra contributiva
de Bowie, às vezes não) gravava uma faixa instrumental, que
poderia ou não se basear em uma idéia original de Bowie.
Então, no último momento possível, Bowie, relutantemente, desceu
do sofá em que ele estava se debruçando com sua esposa e lançou um
conjunto de letras”.
Apesar
do aborrecimento com a fixação de Bowie na vida conjugal,
durante a gravação de The Man Who Sold World, Visconti ainda
o avaliou como o melhor trabalho com Bowie até Scary
Monsters (And Super Creeps), de 1980.
O
próprio Bowie comentou, em uma entrevista de 1998, dizendo
que “eu realmente me opus à impressão de que não escrevi as
músicas em The Man Who Sold the World. Você só precisa
verificar as mudanças de acordes. Ninguém escreve mudanças de
acordes como aquelas”.
“The
Width of a Circle” e “The Supermen”, por exemplo, já existiam
antes das sessões terem começado. Ralph Mace tocou um sintetizador
modular Moog, emprestado por George Harrison; Mace era
um pianista de concertos, de 40 anos, e também era chefe do
departamento de música clássica da Mercury Records.
Composição
Muito
de The Man Who Sold the World possui uma abordagem Heavy
Metal, que o distingue de outros lançamentos de Bowie e
foi comparado a atos contemporâneos como Led Zeppelin e Black Sabbath.
O
disco também proporcionou alguns desvios musicais incomuns, como o
uso de ritmos latinos para manter a melodia na faixa-título.
O
peso sonoro do álbum foi combinado com a temática, que inclui
insanidade (“All the Madmen”), assassinos e comentários sobre a
Guerra do Vietnã (“Running Gun Blues”), um computador onisciente
(“Saviour Machine”), e, em “The Width of a Circle”, um
encontro sexual - com Deus, o Diabo ou algum outro ser sobrenatural,
de acordo com diferentes interpretações - nas profundezas do
inferno.
O
trabalho também foi visto como refletindo a influência de figuras
como Aleister Crowley, Franz Kafka e Friedrich Nietzsche.
Capa
A
versão original norte-americana de The Man Who Sold the World,
de 1970, usou um desenho semelhante ao de uma obra do amigo de Bowie,
Michael J. Weller, com um cowboy na frente do asilo mental de
Cane Hill. Weller, cujo amigo era um paciente lá, sugeriu a ideia
depois que Bowie pediu que ele criasse um projeto que
capturasse o tom de pressentimento da música.
Com
base em estilos de arte pop, Weller retratou um bloco de entrada
principal triste para o hospital com uma torre de relógio
danificada. Para o primeiro plano do projeto, ele usou uma fotografia
de John Wayne (para desenhar uma figura de cowboy vestindo um
chapéu de dez galões e um rifle), e que foi uma alusão à música
“Running Gun Blues”. (Nota do Blog: John Wayne, nome
artístico de Marion Robert Morrison, foi um premiado ator dos
Estados Unidos).
Bowie
sugeriu a Weller que incorporasse a assinatura da ‘cabeça
explosiva’ no chapéu do vaqueiro, uma característica que ele
usara anteriormente em seus pôsteres enquanto fez parte do Arts Lab.
Ele
também adicionou um balão de discurso vazio, para a figura do
vaqueiro, que pretendia ter a mensagem “enrolar as mangas e nos
mostrar seus braços” (em inglês: roll up your sleeves and show
us your arms) - um trocadilho para jogadores, armas e uso de drogas -
mas a Mercury Records a vetou e o balão foi deixado em branco.
De
acordo com o biógrafo de Bowie, Nicholas Pegg, “neste
momento, a intenção de David era nomear o álbum de
Metrobolist, uma brincadeira com Metropolis, de Fritz Lang: o
título permanecera nas caixas das fitas mesmo depois que a Mercury
havia lançado o LP, na América, como The
Man Who Sold the
World. (Nota do Blog: Metropolis é um filme
expressionista alemão, de 1927, com temática de ficção científica
e dirigido por Fritz Lang).
![]() |
| A capa original de The Man Who Sold the World |
Bowie
ficou entusiasmado com o projeto acabado, mas logo reconsiderou a
ideia e foi ao departamento de arte da Philips Records, uma
subsidiária da Mercury, recrutando o fotógrafo Keith MacMillan para
fazer uma capa alternativa.
Uma
foto foi tirada em um ‘ambiente doméstico’, da sala de estar do
Haddon Hall, onde Bowie reclinou-se em uma espreguiçadeira em
um ‘vestido de homem’, de cetim, nas cores creme e azul, uma
clara indicação inicial de seu interesse em explorar sua aparência
andrógina. O vestido foi projetado pelo estilista britânico Michael
Fish.
Nos
Estados Unidos, a gravadora Mercury rejeitou a foto de MacMillan e
lançou o álbum com o design de Weller como capa, para o desagrado
de Bowie, embora ele tenha pressionado o selo para usar a foto
no lançamento do disco no Reino Unido.
Em
1972, David afirmou que o design de Weller era ‘horrível’,
mas o reapreciou em 1999, dizendo que “na verdade, acho que a capa
dos desenhos animados era realmente legal”.
Ao
promover The Man Who Sold the World, nos EUA, Bowie
vestiu o vestido de Fish, em fevereiro de 1971, em sua primeira turnê
promocional e durante entrevistas, apesar do fato dos americanos não
terem conhecimento da nova capa, ainda não liberada no Reino Unido.
A
versão alemã, de 1971, apresentou a capa com uma criatura alada.
Híbrida, com a cabeça de Bowie e uma mão saindo do corpo,
preparando-se para afastar a Terra.
A
reedição do álbum, de 1972, lançada em todo o mundo pela RCA
Records, usou uma imagem em preto e branco de Ziggy Stardust
(personagem que Bowie criaria depois) na capa. Esta imagem
permaneceu como a arte de capa, em reedições, até 1990, quando o
relançamento pelo selo Rykodisc reintegrou a capa britânica do
‘vestido’.
Vamos
às faixas:
THE
WIDTH OF A CIRCLE
O álbum abre com uma bela canção, "The Width of a Circle", a qual permite a junção de melodias suaves e belas com uma dose considerável de peso, alternando agressividade com passagens mais intimistas. O trabalho do baixista Tony Visconti é excelente, bem como o do guitarrista Mick Ronson. Faixa incrível!
A
letra refere-se a um encontro sexual com um deus/demônio nos confins
do inferno:
His
nebulous body swayed above
His
tongue swollen with devil's love
The
snake and I, a venom high
I
said "Do it again, do it again"
(Turn
around, go back!)
“The
Width of a Circle” foi composta, por Bowie, em 1969 e já
havia aparecido em diversos shows antes mesmo do lançamento de The
Man Who Sold the World.
Ela
está presente em diversos lançamentos ao vivo do cantor, muitas
vezes em versões estendidas, como nas presentes em Live Santa
Monica '72, de 1972; e em Ziggy Stardust – The Motion
Picture, de 1983, por exemplo.
ALL
THE MADMEN
A bela "All the Madmen" se inicia de modo suave, com um toque leve e uma interpretação mais contida de Bowie. Mas, logo na sequência, a música vai ganhando peso e a guitarra de Mick Ronson assume o protagonismo. Louvável a atuação do baterista Mick Woodmansey. Trata-se de um Hard Rock com pequenos toques Progressivos, como o Moog bem evidente. Outra baita canção!
A
letra remete à insanidade:
Here
I stand, foot in hand, talking to my wall
I'm
not quite right at all
Don't
set me free, I'm as helpless as can be
My
libido's split on me
Gimme
some good 'ole lobotomy
Bowie
afirmou que a música foi escrita para e sobre seu meio-irmão,
Terry, um esquizofrênico e interno da instituição mental de Cane
Hill até seu suicídio, em 1985.
As
letras incluem referências à lobotomia, ao tranquilizante Librium
e a EST, ou terapia de eletrochoque, um tratamento controverso para
alguns tipos de depressão profunda e doenças mentais.
“All
the Madmen” foi lançada, pela Mercury Records, sob a forma editada
como um single promocional (com a mesma música em ambos os lados),
nos Estados Unidos, em dezembro de 1970, antes mesmo da turnê
promocional de Bowie, por lá, no início de 1971.
Em
junho de 1973, a RCA Records, a qual reeditou o álbum original da
música no ano anterior, emitiu “All the Madmen” como single, na
Europa Oriental, apoiado por “Soul Love”, esta presente no
clássico The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the
Spiders from Mars.
Bowie
tocou a música, ao vivo, na turnê de Glass Spider, de 1987,
embora não tenha sido incluída no lançamento do vídeo com estes
shows até a Special Edition, em DVD, em 2007 (no qual foi lançada
apenas como uma faixa de áudio).
Juntamente
a “After All”, do mesmo álbum, “All the Madmen” foi citada
como uma influência significativa em bandas como Siouxsie and the
Banshees, The Cure e Nine Inch Nails.
Em
2015, a edição do single promocional da música foi oficialmente
lançado pela primeira vez, em Re: Call 1, parte da compilação
Five Years (1969-1973).
Entre
as versões covers mais conhecidas estão as de Alien Sex Friend,
Jeannie Lewis e Max Lorentz.
BLACK
COUNTRY ROCK
Embora as guitarras continuem afiadas, o clássico "Black Country Rock" é um pouco menos densa que as composições que a precedem. Um rock com DNA setentista, guitarra proeminente, pegada Glam, ou seja, certo peso, muita melodia e uma dose inconteste de balanço. Genial!
A
letra possui uma visão otimista:
Some
say the view is crazy
But
you may adopt another point of view
So
if it's much too hazy
You
can leave my friend and me with fond adieu
“Black
Country Rock” é normalmente descrita como um “respiro” ao
peso, musical e temático, do restante do álbum. Seu estilo foi
comparado ao da banda Tyrannosaurus Rex, de Marc Bolan, até o
vibrato imitativo de Bowie no verso final.
“Black
Country Rock” aparece como lado B do single “Holy Holy”, de
1971, e do single português de “Life on Mars?”, de 1973.
Entre
as versões covers mais famosas está a da banda punk Big Drill
Car.
AFTER
ALL
"After All" possui um ar mais sombrio e uma perspectiva mais escurecida. Os vocais mais contidos de Bowie são perfeitos para a abordagem instrumental proposta, também pouco expansiva e mais sóbria. A atmosfera mais enigmática é inquietante.
A
letra revela um pensamento determinista sobre a humanidade:
We're
painting our faces
And
dressing in thoughts from the skies
From
paradise
But
they think that we're holding a secretive ball
Won't
someone invite them
They're
just taller children, that's all, after all
Como
muito de The Man Who Sold the World, as letras de “After All” são
imbuídas de filosofia de Nietzschian Übermensch (“O homem é um
obstáculo, triste como o palhaço”).
O
verso “Viver até o seu renascimento e fazer o que quiser” é
frequentemente citada como homenagem ao ocultista Aleister Crowley e
seu ditum: “Faça o que quiser”.
O
estilo foi inspirado pela ‘ligeiramente sinistra, melancolia
medida’ de músicas que Bowie recordava desde sua infância, como
“Inchworm”, de Danny Kaye.
Tal
como acontece com “All the Madmen”, a atmosfera gótica de “After
All” foi citada como uma influência significativa em bandas como
Siouxsie and the Banshees, The Cure e Bauhaus.
Entre
versões covers famosas estão a de Tori Amos e Billie Ray
Martin.
RUNNING
GUN BLUES
Em "Running Gun Blues", Bowie apresenta uma proposta sonora mais convencional, contando com um Hard/Blues Rock calcado no baixo onipresente de Tony Visconti e na guitarra dominante de Mick Ronson. O resultado é contagiante.
A
letra tem uma mensagem de dor e guerra:
It
seems the peacefuls stopped the war
Left
generals squashed and stifled
But
I'll slip out again tonight
Cause
they haven't taken back my rifle
For
I promote oblivion
And
I'll plug a few civilians
SAVIOUR
MACHINE
Com a seção rítmica bastante presente e oferecendo um peso extra, "Saviour Machine" possui uma abordagem Heavy/Hard bem acentuada. Os vocais de Bowie são ótimos e o Moog também aparece com destaque. Ótima música.
A
letra possui uma crítica à fé:
Don't
let me stay, don't let me stay
My
logic says burn so send me away
Your
minds are too green, I despise all I've seen
You
can't stake your lives on a Saviour Machine
SHE
SHOOK ME COLD
O peso de "She Shook Me Cold" assombra ouvintes mais desavisados, com a canção remetendo a bandas "Proto Metal", como o Blue Cheer, por exemplo. O trabalho das guitarras é impressionante e a seção rítmica enfurecida dá uma agressividade extra à composição.
A
letra tem teor sexual:
I
was very smart
Broke
the gentle hearts
Of
many young virgins
I
was quick on the ball
Left
them so lonely
They'd
just give up trying
O
título prévio da faixa era ‘Suck’.
“She
Shook Me Cold” possui um nome com semelhança à música de Muddy
Waters, “You Shook Me”, a qual foi gravada por Jeff Beck
para o então recente álbum Truth.
As
letras são sobre um encontro heterossexual com referências a sexo
oral. Versões covers foram feitas por bandas como Skin Yard e
Pain Teens.
THE
MAN WHO SOLD THE WORLD
Só o riff espetacular de "The Man Who Sold the World" já valeria todo o disco, mas a clássica composição de Bowie é muito mais que isso. A atuação brilhante de David nos vocais e de Visconti no baixo são incríveis. Enfim, palavras são desnecessárias. Clássico genial!
A
letra pode ser interpretada como existencialista:
I
laughed and shook his hand
And
made my way back home
I
searched for form and land
For
years and years I roamed
I
gazed a gazeless stare
At
all the millions here
We
must have died alone
A
long long time ago
“The
Man Who Sold the World” é um clássico da carreira de David Bowie.
A
persona na música tem um encontro com um tipo de doppelgänger,
como sugerido no segundo refrão onde “Eu nunca perdi o controle”
é substituído por “Nós nunca perdemos o controle”. Além
disso, o episódio é inexplicável, como escreveu James E. Perone:
“Bowie
encontra o personagem do título, mas não está claro exatamente o
que a frase significa, ou exatamente quem é esse homem... O
principal que a música faz é pintar - por mais elucidamente que
seja - o personagem do título como outro exemplo dos marginalizados
da sociedade, que povoam o álbum”.
Em
comum com uma série de outras faixas do disco, os temas da música
foram comparados às obras de fantasia e horror de H. P. Lovecraft.
As
letras também são citadas como refletindo as preocupações de
Bowie com personalidades fragmentadas ou múltiplas, e
acredita-se que tenham sido parcialmente inspiradas pelo poema
“Antigonish”, de William Hughes Mearns.
Entre
as versões mais famosas estão a que o Nirvana fez para o seu
aclamado show acústico.
THE
SUPERMEN
A nona - e última - faixa de The Man Who Sold the World é "The Supermen". Na derradeira canção do disco, Bowie opta por uma abordagem mais tradicional presente no trabalho, ou seja, um Rock/Hard dominado pela guitarra de Mick Ronson. Bons vocais, seção rítmica inspirada e a guitarra afiada perfazem uma grande música!
A
letra critica falsos deuses:
Far
out in the red-skies
Far
out from the sad eyes
Strange,
mad celebration
So
softly a supergod cries
A
música foi citada como refletindo a influência do romantismo
alemão, seu tema e letras referentes às visões apocalípticas de
Friedrich Nietzsche.
Bowie
disse mais tarde: “Eu ainda estava passando pela coisa quando eu
estava fingindo que eu entendi Nietzsche... E eu tentei traduzi-lo em
meus próprios termos para entender isso", então Supermen “saiu
disso”.
Críticos
também viram a influência das histórias de HP Lovecraft em “deuses
idosos dormentes”.
De
acordo com o próprio Bowie, Jimmy Page lhe deu o riff de
guitarra quando este foi guitarrista de estúdio da banda Shel
Talmy, em meados da década de 1960, e tocou em um dos primeiros
lançamentos de Bowie, “I Pity the Fool”.
O
riff foi usado, mais tarde, em outra música de Bowie, “Dead
Man Walking”, do álbum Earthling, em 1997.
Uma
versão alternativa da música foi gravada em 12 de novembro de 1971,
durante as sessões para The Rise and Fall of Ziggy Stardust and
the Spiders from Mars. Ela apareceu, pela primeira vez, no álbum
Revelations - A Musical Anthology for Glastonbury
Fayre, em julho de 1972, compilado pelos organizadores do
Glastonbury Festival, no qual Bowie tocou em 1971.
Mais
tarde, ela foi lançada como uma faixa bônus, no CD e fita cassete, na reedição de Hunky Dory, em 1990, e novamente no disco
bônus Ziggy Stardust - 30th Anniversary Reissue, em
2002.
Versões
covers incluem nomes como Aquaserge e Death Grips.
Considerações
Finais
The
Man Who Sold the World tinha excelentes canções e manteve a
carreira de David Bowie em uma curva ascendente.
The
Man Who Sold the World geralmente foi mais bem-sucedido,
comercial e criticamente, nos EUA que no Reino Unido, quando foi
lançado pela primeira vez.
As
publicações musicais Melody Maker e NME
classificaram-no como “surpreendentemente excelente” e “bastante
histérico”, respectivamente. John Mendelsohn, da Rolling Stone,
chamou o álbum de “uniformemente excelente” e comentou que o
“uso do eco, o phasing e outras técnicas na voz de Bowie, (...)
serviram para reforçar a irritação das palavras e da música de
Bowie”, que John interpretou como “imagens oblíquas e
fragmentadas que são quase impenetráveis separadamente, mas que
transmitem com eficácia um sentido irônico e amargo do mundo quando
considerado em conjunto”.
As
vendas não foram altas o suficiente para abalarem as paradas de
sucesso em qualquer país, na época, no entanto, o álbum atingiu a
ótima 24ª posição da principal parada britânica, enquanto
alcançou apenas a modesta 105ª colocação de sua correspondente
norte-americana, mas, ambas, apenas após o seu relançamento, em 25
de novembro de 1972, na sequência do avanço comercial de The
Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.
The
Man Who Sold the World já foi citado como inspirador do rock
gótico, da onda sombria e elementos de ficção científica no
trabalho de artistas como Siouxsie and the Banshees, The
Cure, Gary Numan, John Foxx e Nine Inch Nails.
Em
seu diário, Kurt Cobain, do Nirvana, listou-o no 45º lugar
de seus 50 álbuns favoritos. Em 1993, o Nirvana tocou sua
faixa-título para seu MTV Unplugged, televisionado de Nova
York. Alega-se, inclusive, que o glam rock tenha
começado com o lançamento deste disco, embora isso esteja longe da
unanimidade.
Em
uma revisão retrospectiva para o site AllMusic,
o editor sênior, Stephen Thomas Erlewine, cita The Man Who Sold
the World como “o início do período clássico de David
Bowie” e elogiou sua “guitarra forte e pesada, que parece
simples na superfície, mas aparece mais nodosa a cada audição”.
Erlewine
deu uma nota 4,5 de um máximo de 5, vendo a música e os “contos
futuristas paranoicos” de Bowie, como “bizarros”, acrescentando
que “Musicalmente, não há muita inovação... é quase todo o
hard/blues rock ou o folk rock psicodélico - mas há um limite
inquietante para o desempenho da banda, que faz do álbum um dos
melhores de Bowie”.
Em
uma revisão após a reedição do álbum, a revista Q o
considerou “um caso robusto e sexualmente carregado”, enquanto a
Mojo o descreveu como “um conjunto robusto que gira com uma
desorientação vertiginosa... O arsenal de Bowie estava sendo
montado apressadamente, embora nunca fosse implementado com um novo e
emocionante abandono novamente”.
Para
promover o disco nos EUA, a Mercury Records financiou uma turnê de
publicidade de costa a costa, por todo o país, através da qual
Bowie, entre janeiro e fevereiro de 1971, foi entrevistado por
estações de rádio e mídia.
Em
dezembro de 1971, David Bowie lançaria seu quarto álbum de
estúdio, o excelente Hunky Dory.
Formação:
David
Bowie – Vocal, Guitarras, Stylophone, Órgão, Saxofone
Mick
Ronson – Guitarras, Backing Vocals
Tony
Visconti – Baixo, Piano, Violão, Flauta, Backing Vocals
Mick
Woodmansey – Bateria, Percussão
Ralph
Mace - Sintetizador Modular Moog
Faixas:
01.
The Width of a Circle (Bowie) - 8:05
02.
All the Madmen (Bowie) -5:38
03.
Black Country Rock (Bowie) - 3:32
04.
After All (Bowie) - 3:52
05.
Running Gun Blues (Bowie) - 3:11
06.
Saviour Machine (Bowie) - 4:25
07.
She Shook Me Cold (Bowie) - 4:13
08.
The Man Who Sold the World (Bowie) - 3:55
09.
The Supermen (Bowie) - 3:38
Letras:
Opinião
do Blog:
Finalmente o RAC se rende e coloca em suas páginas um dos artistas mais incríveis do século XX e alguém para o qual a palavra gênio definitivamente não é exagero: David Bowie.
Bowie teve uma carreira longa e prolífica, variando e experimentando várias vertentes musicais, quase sempre com a mesma competência e genialidade, seja em sua consagrada carreira-solo quanto em suas parcerias e participações com outros artistas. Conhecer a obra de David Bowie é uma obrigação para os amantes da boa música.
Evidentemente, como o nome de nosso humilde Blog sugere, a preferência por aqui é por seus primeiros trabalhos, mais voltados para o Rock, embora, ressalte-se mais uma vez, sugere-se que o leitor procure toda a carreira do saudoso músico.
Em The Man Who Sold the World, David Bowie faz um disco de Rock, mas com um pé fincado no Hard Rock. Além disto, os ouvintes mais atentos percebem sua genialidade ao encontrarem passagens Folk, Prog, Glam por todo o disco.
E o disco só é formidável pelo fato de Bowie ser acompanhado por uma banda formidável. Mick Ronson faz um ótimo trabalho na guitarra, Mick Woodmansey está muito bem na bateria e o baixo de Tony Visconti é um dos maiores destaques para o Blog.
David Bowie possui uma voz única e sua capacidade de interpretação é uma faceta de seu talento incrível. O álbum é uma amostra, fidedigna, da capacidade de David como compositor e letrista, pois sempre há detalhes para se ler, ouvir e, sobretudo, refletir e contemplar.
The Man Who Sold the World é um disco cuja audição flui de modo orgânico e suave. Aqui não há música desnecessária e nem de enchimento.
"The Width of a Circle" possui uma pegada Hard e Bluesy fascinante, além de flertar com o Folk de modo encantador. "Black Country Rock" é um clássico contagiante e a intensidade de "Saviour Machine" e seu fabuloso riff impressionam.
Mas as (mais) preferidas do RAC são a fabulosa faixa-título e a excessivamente subestimada "She Shook Me Cold".
Enfim, finalmente o RAC fez justiça a um dos maiores nomes da música em todos os tempos, o genial David Bowie. The Man Who Sold the World é uma pequena amostra de sua genialidade e, ainda assim, um álbum essencial para fãs, não apenas do Rock, mas da boa música em geral. Disco mais que recomendado!
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